O hipertexto, afinal, o que é?

 

Por Silvio Profirio da Silva em 24/02/2015 na edição 839
 

Consoante Silva (2014a) e Silva (2014b), as tecnologias informáticas carreiam uma gama de alterações nas práticas de leitura e de escrita. Em face das tecnologias digitais, desponta uma série de novos formatos textuais marcados por elementos linguísticos e textual-discursivos provenientes da web. Aludimos, nesse ponto, ao hipertexto. Mas, afinal, o que é o hipertexto? É buscando responder tal indagação que elaboramos este texto.

De acordo com Coscarelli (2009), o hipertexto pode ser conceituado enquanto uma forma textual marcada pela não-linearidade e, acima de tudo, por links e elos os quais facultam o contato do leitor com outros construtos textuais [leia-se textos]. Em outras palavras, tal elemento vai propiciar/ proporcionar o passadiço do leitor para um construto textual subsequente.

Nesse formato textual, os links aparecem ao longo de toda superfície textual. Em geral, eles são colocados em destaque e notoriedade, a partir de uma palavra e/ ou frase que possui um formato diferenciado. Isto é, ela pode vir marcada por intermédio de uma cor diferente da que predomina no texto, bem como através de do negrito, do itálico ou do sublinhado. Isso é o que Xavier (2003) conceitua como link ou hiperlink.

Xavier (2003) e Xavier (2010) evidenciam que o hipertexto transcende a modalidade escrita da linguagem, uma vez que promove a junção/ soma das múltiplas faces da linguagem [a oral/ falada e a imagética/ visual]. Dizendo de outro modo, o hipertexto não se limita/ resume aos elementos alfabéticos [linguagem escrita], mas também abrange/ engloba outros registros da linguagem. Diante disso, o hipertexto vai materializar uma gama de novos elementos linguístico-discursivos, tais como: arquivos de áudio e vídeos, animações, filmes, galerias de imagens/ ilustrações, gráficos, ícones, músicas/ sons etc.. Isso está em consonância com Coscarelli (2009), que diz que “se antes os textos contavam quase que exclusivamente com a linguagem verbal, agora eles contam também com outras linguagens que podem e devem ser incorporadas a eles” (p. 552).

A não linearidade

Segundo Silva (2009), a Web enseja modificações na arquitetura textual. No que tange ao hipertexto, a leitura passará a ter um novo formato, em virtude dos links e de outros elementos textual-discursivos. Ora, a construção do fluxo informacional não é realizada da mesma maneira como ocorre no texto impresso. Com o texto no formato hipertextual, haverá um texto subsequente relacionado tematicamente ao anterior. Nesse contexto, os links vão fomentar o passadiço do leitor outro construto textual e, por conseguinte, para outra leitura. Isso está em sintonia com Xavier (2010). Tal autor defende essa perspectiva de não-linearidade textual como marca constitutiva do hipertexto.

Silva (2009) amplia a discussão acerca da leitura hipertextual. A referida autora demonstra que o leitor vai especificar a condução e o transcurso da sua leitura. Em outras palavras, o leitor irá efetuar diversos movimentos retóricos, podendo interromper uma dada leitura, adentrando em outra. E, para tanto, irá recorrer aos links. No dizer da própria autora, “é o próprio leitor que determina a sua estratégia de navegação através dos links” (p. 84).

Dalmaso & Mielniczuk (2012) também discutem as modificações ocorridas no processo de leitura, por conta da passagem do texto impresso para o digital, ou melhor, hipertextual. As autoras evidenciam que o hipertexto alonga, amplia e propaga a distribuição do conteúdo informacional. Ora, a informação será materializada em uma sucessão de páginas subsequentes. O que acarreta a continuidade temática e textual. Com isso, a leitura no hipertexto terá como traço discursivo o não-fechamento e a não-finalização textual, como salientam Dalmaso & Mielniczuk (2012) e Silva (2014a).

Nesse sentido, o hipertexto consiste em um documento textual, que tem sua arquitetura marcada por uma gama de elementos linguísticos e textual-discursivos advindos do plano digital. Tais elementos viabilizam novos formatos para o ato de ler. Essa competência linguística, agora, terá como marca uma perspectiva de não-linearidade, bem como de alongamento e de continuidade textual. Dito de outro modo, a natureza constitutiva do hipertexto traz à tona a perspectiva de não-fechamento e de não-finalização textual, conforme postulam Dalmaso & Mielniczuk (2012) e Silva (2014a).

Referências

COSACARELLI, C. V.. TEXTOS E HIPERTEXTOS: PROCURANDO O EQUILÍBRIO. Revista Linguagem em (Dis)curso, Palhoça, SC, v. 9, n. 3, p. 549-564, set./dez. 2009.

DALMASO, S. C.; MIELNICZUK, L. “Hipertexto e linkagem: apontamentos sobre aspectos constituintes de uma linguagem digital”. In: PERUZZOLO, A. C.; MAGGIONI, F.; PERSIGO, P. M.; WOTTRICH, L. H. (Org.). Práticas e Discursos Midiáticos: representação, sociedade e tecnologia. Santa Maria: FACOS-UFSM, 2012, v., p. 237-255.

SILVA, A. C. B.. Gêneros Textuais em novo suporte: os softwares educativos. BEZERRA, B. G.; LUNA, J. N. Língua, literatura e ensino: subsídios teóricos e aplicados. Recife: Edupe, 2009.

SILVA, S. P. “A Notícia na Web: um olhar sobre seus elementos textual-discursivos”. Revista Temática, v. n.º 10, p. 177-201, 2014a.

_____. “Práticas de Leitura a partir da Notícia no Hipertexto: um olhar sobre o Portal G1”. In: Anais do VIII Encontro de Ensino, Pesquisa e Extensão da Faculdade Senac, v. n.º 8. p. 01-13, 2014b.

_____. “Práticas de Leitura na Contemporaneidade: um olhar sobre o gênero Blog”. Revista Lecturas Educación Física y Deportes, Buenos Aires, v. 193, p. 01-10, 2014c.

XAVIER, A. C. S.. Leitura, texto e hipertexto. In: MARCUSCHI, L. A.; XAVIER, A. C. S. (Orgs.).Hipertexto e Gêneros Digitais: novas formas de construção de sentido. São Paulo: Cortez, 2010.

_____. “Hipertexto e Intertextualidade”. Revista Cadernos de Estudos Linguísticos, Campinas – SP, v. 44, n.01, p. 283-290, 2003.

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Silvio Profirio da Silva é graduado em Letras

 

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